O cinema brasileiro vive um tempo luminoso — e a cultura precisa ocupar o centro das estratégias de desenvolvimento do país.
Há momentos em que a arte deixa de ser apenas expressão simbólica e passa a cumprir, de forma explícita, um papel estratégico. O atual reconhecimento internacional do cinema brasileiro é um desses momentos. Ele projeta talentos, movimenta cadeias produtivas complexas, gera emprego, renda e reposiciona o Brasil no mapa da economia criativa global.
A trajetória de Wagner Moura, amplamente reconhecido desde Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, simboliza esse amadurecimento artístico e profissional. O protagonismo de atores e produções nacionais em grandes premiações internacionais — como o Globo de Ouro, que tradicionalmente antecede o Oscar — não é fruto do acaso. É resultado de investimento, política pública, visão estratégica e valorização do capital humano.
Esse cenário reforça algo que defendo há décadas: cultura não é gasto, é investimento estruturante. Demonizar instrumentos como a Lei Rouanet é um equívoco histórico. Incentivos fiscais bem regulados são motores de desenvolvimento humano, econômico e social. Eles ativam setores inteiros, fortalecem identidades regionais e ampliam o alcance da produção cultural brasileira.
O Brasil é plural por natureza. Suas culturas regionais formam um mosaico potente que precisa ser compreendido também sob a ótica econômica. Foi exatamente essa visão que busquei implementar durante minha atuação como Secretário de Cultura do Distrito Federal, quando promovemos resultados concretos ao inserir a cultura no debate do desenvolvimento ativo, da geração de emprego e do impacto direto no PIB.
Essa experiência se aprofundou na convivência com Joãosinho Trinta, um dos maiores criadores da história cultural do país. À frente do Instituto Joãosinho Trinta, e como idealizador do primeiro sindicato da indústria criativa no Brasil, tive a oportunidade de vivenciar de perto o funcionamento real da economia criativa.
O Carnaval é um exemplo emblemático. Muito além dos dias de desfile, ele sustenta uma engrenagem permanente de trabalho e renda. A Cidade do Samba, no Rio de Janeiro, é prova viva disso: centenas de profissionais atuando ao longo de todo o ano em áreas diversas, da cenografia à costura, da logística à criação artística.
O cinema opera sob a mesma lógica. Uma produção vencedora carrega consigo um ecossistema inteiro de profissionais altamente especializados — muitos deles em áreas onde, ao contrário do que se imagina, a inteligência artificial ainda demorará a substituir a sensibilidade humana, o repertório cultural e a capacidade criativa.
A cultura movimenta a economia, mas vai além dela. Como dizia Joãosinho Trinta, “o povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”. A emoção, a alegria e o encantamento também geram valor, pertencimento e identidade. E essa energia se espalha, influenciando positivamente outros setores da sociedade.
Celebrar o cinema brasileiro é, portanto, celebrar um projeto de país que acredita na sua gente, na sua diversidade e na força da sua indústria criativa.
Viva o cinema brasileiro. Viva a cultura. Viva a economia criativa como eixo estratégico do desenvolvimento nacional.